Já há muitos anos, qualquer observador das relações internacionais tem tido motivos para se surpreender com a Libia. Uma região mediterrânea, com uma geografia privilegiada. Mas com um passado de sucessivas disputas de poder, ora tribais/étnicas, ora religiosas.
Mas a tolerância do próprio povo libio com Khadafi sempre me surpreendeu. Era uma panela de pressão, um dia tinha que explodir. Khadafi é sanguinário, vingativo, desumano, e sobretudo, com idéias absolutamente insanas. Outra surpresa é o filho dele: Seif Al-Islam, educado em universidade ocidental, fala um inglês fluente (embora com forte sotaque) mas defende os valores medievais do pai. Fica muito claro que tanto pai quanto filho não querem abrir mão do poder e da riqueza, conquistados pela repressão e pelo ódio. Não largam o osso e rosnam para todo lado.
Os valores democráticos ainda têm um longo caminho a percorrer. A Libia faz parte do Magreb, denominação do conjunto dos países árabes “mais para oeste” do norte da África. Mas para o leste, começando pelo Egito e abrangendo a Península Arábica e os países do Golfo Pérsico, é onde se situa a essência do chamado “mundo árabe”. Onde, aliás, também parecem eclodir algumas manifestações libertárias, em oposição às monarquias – na maioria teocracias – que mandam por lá.
Em outro post, pretendo abordar o surpreendente Bahrein.
Por enquanto, vamos olhando com um certo temor a situação líbia. Neste exato momento, a região do oeste, denominada Tripolitânia, já está dominada pelos rebeldes, e a região do leste, denominada Cirenaica, é (ainda) dominada por Khadafi e seus apoiadores. São regiões muito diferentes. A Tripolitânia foi originalmente ocupada pelos fenícios (séc. VII AC) , depois sucedidos pelos romanos. Já a Cirenaica foi originalmente ocupada pelos gregos. Então são duas culturas diferentes.
E se Khadafi realmente cair – que é a tendência – quem irá ocupar o vazio? Algum radical religioso? É o maior risco, sem dúvida. Ou será que a região corre o risco de ser particionada segundo sua divisão natural, cultural, milenar? Não dá para apostar em nada. Pelo menos, olhando daqui, deste cantão da América do Sul.