O Mistério do Auditório (Parte 4)

02/06/2013

Em 1962, o país fervia. Menos de um ano atrás, o episódio da Legalidade sacudia Porto Alegre, com todas as suas consequências. Fosse na política, fosse na literatura, nas artes, na música, as mudanças estavam acontecendo. E também mudava a geografia do país: Brasília ainda era um novidade. Um novo estado tinha sido criado; chamava-se Guanabara.
O recém-formado Alexandre Prates, vestindo um adequado terno escuro com gravata de listras azuis, estava de volta na estação rodoviária, esperando o ônibus que o levaria, uma vez mais, à cidade de São Leopoldo.
Aquela calçada lhe era tão familiar! Eram paralelepípedos diferentes, maiores. Arredondadas, essas velhas pedras escuras e brilhantes deviam ter testemunhado muitas histórias. Muitas idas e vindas, muitas histórias de fé, de amor, de desilusões, e até de crimes. Será que eram tão lisas por terem sido polidas pelos bilhões de passos que já tinham friccionado suas superfícies? Parado ali, esperando seu ônibus, Prates se viu nos tempos de criança, quando seus pezinhos de seis anos tropeçavam nas junções das enormes pedras, quando ele e seus pais passavam por ali para embarcar nos ônibus para Tramandaí, onde veraneavam. As mesmas pedras lisas. Será que ficariam ali para sempre? Será que, daí a, sei lá, cinqüenta anos, elas ainda estariam ali?
A divagação foi interrompida pela chegada do grande veículo.
Em menos de um hora, lá estava ele de novo, entrando na residência dos jesuítas. A cidade permanecia limpa como antes, alemã como antes. Só que maior. Alguns novos e altos prédios tinham sido erguidos, mas o velho quarteirão dos padres permanecia igual.
Sabia que o seu velho mestre, padre Vieira, já tinha falecido. No entanto, queria saber se ele tinha deixado algum material de consulta sobre o mistério que o intrigava desde os tempos do colégio.
Foi fácil achar a sala da administração da província jesuítica. E lá, fez sua indagação.
Não, o padre Vieira não havia deixado nenhum material escrito, nenhum livro de memórias, nada de anotações. Mas não custava ele dar um pulinho no arquivo da residência, pois lá se achavam guardados os “assentamentos”. Eram livros de registro de fatos relevantes da comunidade jesuítica, desde que ela se estabelecera, no século passado. Como esperado, teria de atravessar o jardim e virar à esquerda que encontraria o arquivo.
Passos decididos, o jovem advogado rumou para o jardim interno que já conhecia. O dia ensolarado realçava as flores dos canteiros que ladeavam as mesmas alamedas suas conhecidas.
A inevitável parada de contemplação e a aspiração daquele perfume de natureza fez seus sentidos se aguçarem. Não demorou muito para aparecer a gorda batina preta sentada em um banco, com um livro aberto nas mãos, numa ávida leitura à sombra de um cinamomo. Era o mesmo padre da outra vez, por certo ele gostava muito de ficar no jardim.
“Com licença, Padre? Posso falar um pouquinho com o senhor?”
O olhar redondo se abriu num sorriso:
“Claro, jovem! Senta aí! Sou o Padre Muller. Em que posso te ajudar?”
O advogado se apresentou e disse a que veio:
“Será que eu consigo algum material, alguma documentação sobre uma velha superstição chamada CAPODRA? Eu falei com o meu amigo, o falecido padre Vieira algumas vezes sobre isso, mas gostaria de ir mais a fundo. Pura curiosidade.”
Testa franzida, o simpático religioso relutou em falar sobre o assunto.
“Em geral, não gostamos de falar sobre superstições, sabe? O Vaticano não aprova que façamos especulações sobre supostas existências imateriais alheias às doutrinas cristãs.”
O Prates não iria desistir:
“Eu sei, Padre. Tudo o que eu quero é uma pista. Uma indicação de onde posso obter mais material sobre o assunto. Qualquer coisa!”
O simpático religioso fechou o livro que estava lendo, levantou-se e disse:
“Vem comigo. Talvez eu consiga alguma coisa.”
Contornando o jardim pelo lado esquerdo, passaram por uma fonte de águas cristalinas e, logo à esquerda, estava o prédio Sul do complexo, com diversas e imponentes portas em arco. Na terceira porta, lia-se: “ARQUIVO”.
O religioso explicou:
“Sou professor de História, e portanto, costumo consultar documentação antiga. Durante muitos anos, a partir de 1863, circulou nesta cidade um jornal editado pelo Sr. Carlos von Koseritz, que hoje é até nome de rua. Mas a comunidade alemã era quase toda protestante, e esse jornal, impresso em alemão, freqüentemente publicava matérias, digamos, anti-católicas. Algumas poucas matérias tinham ao lado a tradução para o português.”
O espaço onde eles entraram era amplo. Várias estantes, cheias de material impresso, devidamente classificado e rotulado. Num dos corredores, acharam um plaquinha que indicava o periódico que o padre procurava: “Deutsche Zeitung”. O padre esclareceu:
“Este jornal era anti-católico, e tudo o que pudesse dar munição aos ataques religiosos era usado. Eu sei que em dezembro de 1880 foi publicado um editorial, assinado pelo próprio Koseritz, que fala sobre o que tu estás procurando.”
Devidamente organizados em caixas de papelão, os exemplares amarelados do velho jornal resistiam à ação do tempo. Logo apareceu o exemplar procurado.
Na contracapa, estava o editorial cujo título dava uma boa ideia do conteúdo: “Lenda pagã anti-cristã é aceita pelos Jesuítas”. O texto relatava com acidez uma suposta crendice de que um ser não-material habitava algumas instalações dos jesuítas, em especial os colégios. O relato dava conta de que essa suposta criatura era mencionada em manifestações em Portugal e Espanha, desde pelo menos o Século XV. E mais: denunciava que essa criatura, denominada “capodra”, constava de escrituras dos tribunais da Inquisição, algumas delas redigidas pelo próprio bispo dominicano Tomás de Torquemada, certamente o inquisidor mais perverso e sanguinário. Esse suposto ser manifestava-se de diversas formas, sendo a mais comum uma risada sinistra seguida de tremenda crise de indigestão em todas as pessoas que a ouviam. A matéria dava conta de que os jesuítas atribuíam esse ser a uma manifestação demoníaca trazida por judeus ou mouros muçulmanos, hereges que professavam religiões “inimigas da fé em Cristo”. O texto ainda questionava a sinceridade da fé cristã dos jesuítas, que ousavam aceitar uma manifestação herética e pagã. E por aí afora.
Pedindo licença ao Padre Muller, nosso curioso advogado sentou-se a uma das mesas de consulta e, sacando de um grande bloco pautado, copiou o texto, palavra por palavra. Os padres não tinham o recurso da fotocopiadora, que era equipamento muito novo e caro, e usava um caríssimo papel sensível à luz que deveria depois ser revelado, como qualquer material fotográfico.
No final, o virulento texto dizia que, em Braga, na igreja da Sé, havia não só material sobre o assunto como também vários religiosos que se diziam testemunhas dos fenômenos da capodra.
Ao final da penosa cópia do texto, Alexandre Prates fechou seu bloco, e guardou-o na pasta de couro marrom.
“Agradeço muito ao senhor, Padre, pela boa vontade em me ajudar. Gostaria de saber se o senhor conhece mais alguém tenha informações sobre esse assunto, por aqui.”
O religioso abriu os braços com as palmas das mãos para cima:
“Não se sabe, meu filho. Até porque, devido a todo o histórico, quem sabe não fala. Lamento.”
Prates sabia que se tratava de uma história intrigante. E ele, por natureza, tinha curiosidade sobre tudo que fosse “fora do trivial”. Não por outra razão, já tinha emprego em um grande escritório de advocacia de Porto Alegre, e já estava cheio de processos da área de família.
Prates era um jovem com espirito inovador. Sabia que a implementação do divórcio no Brasil era uma questão de tempo. Na área política, o então deputado Nelson Carneiro lutava por uma lei que permitisse o divórcio. Mas enfrentava grande resistência das igrejas. Carneiro tinha sido também autor da emenda que instituíra o parlamentarismo no Brasil, como “saída honrosa” do episódio da Legalidade. E a lei do divórcio não tinha jeito de sair. Nesse meio tempo, casais desfeitos tinham de se contentar com uma situação esdrúxula, que era o desquite. E isso dava serviço para advogados como Prates. Além, é claro, de processos de adoção de crianças, abandono de menores, maus tratos, tudo, enfim. Serviço não faltava.
No ônibus, voltando a Porto Alegre, fazia planos.
No futuro, vencidas as etapas de início de carreira, quanto tivesse mais tempo, ele queria voltar ao assunto desse mistério. Não, ele não queria. Ele precisava disso. Ele devia. Não sabia que força o empurrava, mas ele devia.
Sabia disso.
Devia.

O Mistério do Auditório (parte 3)

30/05/2013

Era um sábado chuvoso.
O verão chegara mais cedo naquele ano em Porto Alegre. Quente e úmido, causava um desconforto ao Prates.
Desceu do bonde na esquina da rua da Conceição. Naquele tempo não havia o viaduto nem o túnel. O bonde vinha da zona norte da cidade e havia uma parada na esquina da Conceição.
Seguiu em direção ao rio. Depois de cruzar a famigerada Voluntários da Pátria com suas prostitutas, foi tragado pela pequena multidão que se comprimia na calçada de grossos paralelepípedos brilhantes, com as bordas arredondadas. Ali funcionava a rodoviária, ou seja, o antigo terminal rodoviário da cidade.
Os ônibus estacionavam no sentido oblíquo à calçada, pois a rua naquele ponto era muito larga. De um lado ficava a rodoviária, e do lado oposto ficava a estação central dos trens. No meio, um vasto corredor com calçamento de paralelepípedos, que se prolongava até a beira do Guaíba. Ali os ônibus que chegavam e partiam faziam suas manobras, em meio ao fluxo de velhos táxis e de uns poucos automóveis particulares – na época, carro era coisa de rico.
Era o Largo Vespasiano Veppo – nome que homenageava o fundador e patrono da empresa Veppo, concessionária dos serviços do terminal rodivário na época.
Dentro do prédio cinza, encontrou a bilheteria onde comprou a passagem para São Leopoldo. O próximo veículo sairia em dez minutos.281BE1DB-9EE1-4E51-845D-13924B1FEC4A
Pasta de couro numa mão, guarda-chuva e bilhete na outra, o Prates entrou no moderno ônibus, sentando-se numa confortável poltrona de couro marrom.
Quase uma hora depois e 30 quilômetros ao norte, estava no centro da limpa cidade de colonização alemã.
Foi fácil achar o complexo de prédios dos jesuítas. Lá estavam o colégio e a residência dos religiosos, ocupando um quarteirão inteiro do centro da cidade. Entrando pelo portão principal e depois de um pergunta-daqui e pergunta-dali, Prates chegou num ambiente que o fez perder o fólego. Todos os prédios que compunham o complexo jesuítico davam para um imenso pátio central. Pátio, não: um jardim. Enorme e cortado por um labirinto de alamedas ensaibradas, o jardim tinha o cheiro da natureza mesmo estando no centro da cidade. Mesmo naquele dia chuvoso, o ambiente de verdes profundos convidava à contemplação. O formando Alexandre Prates parou junto a uma grande capororoca cuja copa generosa era forrada de enormes folhas de um verde profundo.
Enquanto olhava fascinado para a abundância surpreendente, não notou um vulto que se aproximava.
“Olá, jovem! Procura alguém?”
A voz de barítono pertencia a um simpático padre, um tanto obeso, com um calva reluzente e óculos de aro de metal. Batina preta e sapatos pretos, o religioso, talvez na faixa dos cinqüenta anos, exibia um sorriso cordial.
“Bom dia! Na verdade, sim. Estou procurando o padre Vieira, que era do Coléio Anchieta.”
“Então vieste ao lugar certo. No prédio lá do outro lado do jardim, entra pela porta do meio e sobe ao primeiro andar. Mas ele está meio doente, sabe? Não sei se vai conseguir falar muito!”
O estudante ficou agradecido:
“Obrigado, padre. Por pouco que eu fale, já estará bom. Tenho grande estima por ele.”
“Então vai, meu filho. E boa sorte!”
Pasta numa mão, guarda-chuva na outra, Prates se enfiou pelas alamedas. Cada passo fazia o som típico do saibro cedendo sob as solas dos sapatos.. Crac, crac, crac!
Um pouco sufocado pelo calor e pelo lance de escadas que teve que subir, o estudante deu por si num amplo corredor, com portas dos dois lados, todas fechadas. O piso de madeira brilhava à luz das clarabóias no teto. Ao lado de cada porta, havia uma plaquinha identificando os moradores de cada quarto. Teve de ir até quase o fim do corredor para achar a plaquinha que dizia “Joaquim A. Vieira, SJ”. Uma leve batida na pesada porta, e a voz de um “entre” não tardou a ser ouvida.
O aposento era pequeno. Um roupeiro de madeira escura, uma escrivaninha com a respectiva cadeira e uma cama simples eram a mobília do quarto do velho religioso. A escrivaninha ficava frente à janela, cujas cortinas leves mal filtravam a claridade do jardim que Prates já conhecia. Sentado na cama, apoiado por travesseiros e almofadas, Padre Vieira lembrava apenas de longe o homem ágil que havia sido anos atrás. O rosto magro e pálido deixava claro que se tratava de um idoso doente. Mas os olhos! Esses eram os mesmos olhos vivos, de uma expressão ardente, olhos castanhos que revelavam a ascendência portuguesa do velho jesuíta.
“Licença, padre? Não sei se o senhor se lembra de mim, fui seu aluno!”
A voz do velho, embora fraca, fez-se ouvir firme e clara:
“Meu filho, tive muitos alunos, e atualmente enxergo pouco. Mas pode entrar, é uma alegria que alguém ainda se recorde deste velho servo de Jesus!”
O Prates largou a pasta e o guarda-chuva num canto perto do roupeiro e aproximou-se do idoso.
“Não só me recordo como fiz questão de lhe fazer esta visita, Padre.”
Pouco a pouco, o estudante foi contando ao idoso quem ele era, a que turma pertencia, e finalmente falou sobre o quinteto de câmara em que tocou como violinista.
“Claro que me lembro”, disse o padre. “Vocês eram jovens com amor à música, e aquele entusiasmo sempre me impressionou!”
“Pois agora, Padre, vou me formar em Direito e gostaria que o senhor fosse à formatura.”
“Ah, meu filho! Como eu gostaria! Mas eu mal consigo caminhar alguns poucos passos. Certamente não poderia comparecer, mas meu coração vai estar contigo, podes ter certeza.”
Na verdade, o Prates já tinha ido sabendo que era provável que o velho padre não pudesse ir. Mas puxou conversa sobre os velhos tempos, as aulas de canto orfeônico, o velho piano de cauda do auditório do último andar, o ambiente tão dedicado ao estudo e à difusão das artes. E então arriscou a pergunta:
“Padre Vieira, eu me lembro de uns episódios curiosos, que eram atribuídos a uma superstição. Era o que parecia uma risada de bruxa, que causava distúrbios intestinais nos alunos que a ouviam. O que o senhor me conta daquilo?”
“Ah, meu filho. Sabe como é, certas historias são folclore. Acabam influindo no imaginário das pessoas! Pura superstição!”
O Prates sabia que ele provavelmente iria dizer isso. E também sabia que teria que insistir.
“Padre Vieira, por favor, me conte a verdade. Eu sei que esses acontecimentos estavam documentados e eram objeto de alguma forma de preocupação entre os senhores. Sou muito curioso, e preciso saber mais sobre o assunto! Além disso, aquele velho prédio não existe mais!”
Pouco a pouco, a argumentação de Prates abriu uma pequena brecha na resistência do padre.
“Na verdade, meu filho, sei pouco sobre isso. O que sei é que essa é uma superstição – ou é tida como superstição – muito antiga. Coisa que vem do tempo dos jesuítas portugueses ainda.”
Então o Prates resolveu ir adiante:
“Padre, o que é capodra?”
O olhar vivo do velho sacerdote se tornou ainda mais forte:
“Como sabes esse nome?”
Relutante e com cuidado, o estudante contou que tinha folheado os livros de ocorrências do colégio, e tinha achado anotações com essa palavra.
Vencido, o velho religioso explicou:
“Tudo o que sei é que a lenda sobre um ser misterioso acompanha os jesuítas desde Portugal. Na verdade, se há algo mais sobre essa lenda, só se saberá lá em Portugal mesmo.”
“Como assim, padre? Em que região? Em que cidade?” – insistiu Prates.
“Na verdade, meu filho, o que se sabe dessa lenda é que é uma tradição oral dos judeus sefaradis da região do Minho.”
Surpreso, o jovem pergunta:
“Judeus? Como assim?”
“Bom, como se sabe, judeus, muçulmanos e cristãos coexistiram por séculos em Portugal e Espanha. Primeiro, os árabes foram expulsos da sua conquista ibérica. Depois, em 1492, os reis católicos expulsaram os judeus. Na sua migração tentando escapar da Inquisição espanhola, muitos judeus foram para Portugal, e posteriormente vieram para o Brasil. Em Portugal, tiveram grande influência na cultura local.”
O estudante queria saber mais:
“Onde, Padre Vieira?”
O religioso então completou:
“Na região do Minho. Braga.”
Já no ônibus, voltando para Porto Alegre, Prates não tirava da cabeça o que dissera o padre:
“Na região do Minho. Braga.”
Um dia, quem sabe…
Quem sabe…

O Mistério do Auditório (parte 2)

24/02/2013

“Feche o controller”.
Estava escrito numa plaquinha de metal, amarela, de formato oval, pendente dos fios de energia que forneciam alimentação elétrica para o bonde.
O Prates ia descer mais adiante, mas já estava na parte da frente do veículo, para ficar perto da porta. Estava ao lado do motorneiro, e aproveitava para apreciar a paisagem do centro de Porto Alegre. Para os mais jovens, “motorneiro” era como se chamavam os condutores dos bondes.
“Posso saber o que significa aquela plaquinha?” – perguntou curioso ao motorneiro.
O motorneiro, um preto simpático de bigodinho ralo, deu uma explicação didática:
“Está vendo esta espécie de manivela aqui, onde estou com a mão? É o acelerador do bonde. Tem que estar na posição desligada, quer dizer, aqui no “off”, na hora de passar pelo desvio, e o bonde vai só no embalo, sem energia no motor.”
“E se não estiver desligada?” – perguntou o curioso.
“Ah, aí ele faz aquele conjunto de trilhos – o desvio – mudar de posição e o bonde muda de trilho, seguindo reto em direção ao Gasômetro.”
Era assim o Prates. Curioso. Mesmo sendo um assunto técnico. Ele, quase advogado, prestes a se formar em direito na URGS – Universidade do Rio Grande do Sul. Essa era a sigla; mais tarde alguém botou um “F” no meio para dizer que era universidade federal. Pois ele era curioso. Sobre qualquer assunto. O que valeu ao Alexandre Prates a fama de “mestre” entre os colegas. Na faculdade, o nome de guerra era APÊ – as iniciais do nome dele. Então era “Mestre Apê”.
O pesado veículo fez a curva em frente ao Mercado, entrando no apertado corredor do abrigo dos bondes da Praça Quinze. O formando desceu do bonde e foi imediatamente engolido pela pequena multidão, uns embarcando, outros desembarcando, outros esperando seu bonde, outros simplesmente apreciando o movimento. O abrigo dos bondes era sempre movimentado. De um lado, os trilhos. De outro, vários pequenos estabelecimentos que ofereciam lanches baratos: sanduíches, cachorros-quentes, sonhos, sucos espremidos na hora e as famosas batidas de banana.
Prates passou reto.
Tinha pouco tempo.
Subiu a Marechal Floriano, entrando em seguida à direita na Rua da Praia. Esquivando-se do movimento da elegante rua, foi reto até quase no fim da quadra, entrando na Livraria do Globo.
O prédio antigo tinha a solene respeitabilidade de um dos pontos mais tradicionais da cidade.
Alexandre Prates fez as suas compras: fichas em branco para anotações, uma resma de papel de ofício, um carretel de fita para máquina de escrever e um envelope de papel carbono. Tudo necessário para os trabalhos de fim de curso e também para o estágio que tinha conseguido, em um escritório de advocacia de um velho profissional amigo do seu pai. Pagou a compra e meteu tudo dentro da sua rechonchuda pasta de couro.
Fim de curso. Precisava ir dar uma olhada no colégio onde estudara durante tantos anos, palco de grandes acontecimentos da sua vida. Ainda mais agora, que o colégio iria mudar de endereço.
Os padres jesuítas tinham comprado um enorme terreno longe do centro, numa região ainda pouco povoada da cidade, na avenida Nilo Peçanha. Era tudo mato, mas diziam que era um dos bairros para onde a cidade se derramaria nas próximas décadas.
Saindo da livraria, o formando subiu a Borges de Medeiros até encontrar o viaduto. Subiu nas escadarias, nas laterais, galgando os grandes arcos daquela linda obra viária da sua cidade. No topo, encontrou a sua velha conhecida rua Duque de Caxias. Mais uns poucos metros e já entrava pelo portão principal do velho colégio. Tudo ali era familiar. Os paralelepípedos do pátio. As portas altas das salas. Até o cheiro! O cheiro! Cheiro da sua infância. O cheiro do velho colégio, impossível de descrever em palavras. Depois de uma caminhada pelos corredores ladeados pelos lindos arcos, voltou para a frente do colégio, entrando na secretaria.
“Sou um ex-aluno, e procuro pelo padre Vieira.”
O funcionário com ar cansado mostrou uma certa surpresa:
“O padre Henrique Vieira?”
“Sim, esse mesmo” – respondeu Prates.
“Não está mais aqui. Se mudou para a residência de São Leopoldo.”
“Se mudou? Mas o que ele foi fazer lá?”
O funcionário explicou:
“É que ele está já bem velhinho, sabe? E dizem que está bem doente. Então ele está aposentado, lá na residência dos jesuítas, no centro de São Leopoldo.”
O Prates então explicou:
“É que eu vou me formar no fim do ano, e queria convidar o Padre Vieira, desde já, para a formatura. Ele sempre foi uma pessoa especial para mim, principalmente porque incentivava a música.”
“Vou te dar o endereço. Tenho certeza que ele vai te receber, se estiver em condições.”
Endereço anotado e guardado na pasta, Prates respirou fundo, absorvendo mais uma vez os aromas do colegio: cheiro do papel velho, das encadernações de couro, do mofo.
Num canto, no chão, repousava uma pilha de livros de registro, todos com encadernação em couro, todos meio comidos pelas traças, todos com manchas de bolor. Nas capas de todos eles, o título: “Ocorrências Administrativas”.
Perguntou a rapaz que o atendia: “Posso olhar?”
“Porque não? Isso vai fora mesmo, vamos queimar todos os documentos muito antigos, eles não querem levar para o prédio novo certas coisas muito antigas e sem utilidade!”
Os livros estavam organizados por ano. Qual foi o seu último ano no colégio? 1957! Achado o livro, não foi difícil achar uma data: 23 de setembro. Foi o dia do insólito acontecimento em que o amigo Verbo fora acometido de um mal súbito após ouvir a misteriosa gargalhada, lá no auditório. O amigo tivera de ser buscado pelo seu pai. Ali estava a ocorrência escrita a mão,com caneta azul, que mencionava: ” Feito contato por telefone com o pai do aluno Cláudio Fertz. Este foi acometido de intensa diarreia após evento relacionado a superstições, no auditório.”
E o mais interessante: na margem do livro, uma anotação em tinta vermelha, grifada, com uma seta apontando para a palavra “superstições”. A anotação era uma palavra apenas: “CAPODRA”.
O estudante, sem entender nada, ficou por alguns segundos olhando a estranha anotação.
Teve, então, ideia de folhear esse e outros livros, para ver se apareciam anotações semelhantes.
Estranho. Em uma rápida pesquisa, encontrou mais meia dúzia de casos em que a palavra “superstição” ou o plural, “superstições” estava grifada e apontada com o mesmo sinal: “CAPODRA”.
Que raio era isso?
Curioso, o Prates não ia deixar esse assunto sem algum esclarecimento.
Ah, que não ia, não ia.
Como os velhos livros estavam num canto, Prates usou o corpo para que o funcionário não notasse e, silenciosamente, arrancou a bolorenta página do livro, enfiando-a em seguida na sua pasta. Afinal, eles não iam mesmo queimar o livro? Que diferença essa página ia fazer?
Agradeceu a atenção e saiu para a rua.
Tinha que achar tempo para uma visita.
Tinha de ir a São Leopoldo.

O Mistério do Auditório (parte 1)

16/02/2013

O bonde escorregava devagar pelos trilhos da rua Duque de Caxias. No mostrador, do lado de fora, exibia o nome da linha: “DUQUE”, claro. Vinha dos lados da Praça da Matriz. Tendo recém passado pelo Palácio do Governo e pela Catedral, diminuía a velocidade e ia parando com suavidade em frente à entrada do antigo Colégio dos Padres, agora com o nome de Colégio Anchieta.
O ano de 1957 passava por aquela Porto Alegre provinciana, ingênua até, comparada com a fúria do que é hoje. Naquela época, sem sobressaltos, os bondes elétricos eram o principal meio de transporte da cidade.
Do bonde desceu um grupo de estudantes rumo às suas aulas. Entre eles ia o Prates. Já era vereterano no colégio, estava em febris preparativos para o vestibular de Direito. Só que, nesse dia, depois das aulas, ia permanecer no colégio, para o ensaio do grupo de música de câmara. Ansioso, assistiu à aula de Latim louco para que o tempo passasse logo.
Latim!
O curso de Direito era exigente em relação ao Latim. E não havia lugar melhor para estudar essa velha língua do que um colégio de padres jesuítas. E o melhor de todos era, sem dúvida, o Anchieta. Embora alguns dissessem que o Julinho (colégio Estadual Júlio de Castilhos) era tão bom quanto, ou até melhor.
Mas, enfim, o tempo foi passando e a aula terminou. O Prates meteu os cadernos na pasta de couro que todo estudante carregava, e foi direto para a sala do jornal do colégio. Era lá que ele tinha deixado guardado seu instrumento, um lindo violino. O instrumento repousava acomodado no interior aveludado de um estojo preto. Instrumento em uma mão, pasta na outra, caminhou pelo longo corredor de ladrilhos portugueses. Do lado esquerdo, pesadas portas que se abriam para as sisudas salas de aula. Do lado direito, um muro de metro e meio e os enormes arcos que deixavam ver o pátio interno, calçado com paralelepípedos muito regulares, muito limpos.
No fim do corredor, a escadaria. Prates tinha que ir até o último andar, que era o terceiro. Degraus de madeira, que rangiam enquanto o Prates, pesadamente, ia escada acima. Vencido um lance, havia um patamar e depois a escada continuava, no sentido oposto. Numa mão, a pasta, na outra, o violino. Quase chegando. Última etapa. À medida que se subia aquela escada, o ambiente ia ficando mais sombrio.
Bem no topo da escada, um outro patamar, já no nível do último andar do velho prédio. Uma pesada porta dupla era encimada por um letreiro de metal alouçado, fundo branco com letras pretas: “AUDITÓRIO”. Esse letreiro, como todos os números das salas de aula, tinha a idade do prédio. Eram todos eles placas de metal, tratadas com uma camada de cerâmica. A mesma técnica era usada em panelas e travessas de boa qualidade: metal com uma camada cerâmica.
Mas então lá estava o Prates, um pouco ofegante pela subida. A porta não estava trancada, porque o Padre Vieira, incentivador das artes, sabendo da hora do ensaio, tinha providenciado sua abertura. Ainda começando a se acostumar com a penumbra, o Prates fechou a porta, que cantava com o rangido clássico das velhas aberturas. Na platéia havia umas poucas lâmpadas acesas, apenas o suficiente para acertar o corredor central rumo ao palco. Prates, subindo os degraus do palco, imediatamente viu que não tinha sido o primeiro a chegar. Os rapazes do quinteto de cordas costumavam ser pontuais, mas de todos eles o Verbo era o mais pontual. Claro, esse era o apelido dele, por causa da facilidade que ele tinha para falar em público. Muita gente nem sabia o nome dele, pois desde pequeno carregava o insólito apelido.
Mal viu que era o Prates, o Verbo correu ao encontro do amigo. Ofegante. Lívido. Apavorado.
“Desta vez foi comigo!” – urrou o Verbo, branco feito folha de papel.
“Foi o quê, vivente? O que te aconteceu?” – perguntou o Prates, largando violino e pasta no chão do palco.
“A risada debochada! Riu pra mim! E o pior é que eu não saio do banheiro! Uma dor de barriga o tempo todo!”
O Prates sabia da história. Só os mais antigos, só os veteranos a conheciam. Corria a lenda que algum ser maligno, alojado no velho edifício, atacava pessoas desprevenidas. O ser – fosse o que fosse essa manifestação – tinha uma risada sinistra, uma voz feminina como se estivesse a debochar da sua vítima. E , imediatamente, sua presa era acometida de uma diarréia horrível, que poderia durar dois dias, sem causa aparente.
“Tu tens certeza que ouviste isso? Náo foi impressão tua?”
“Impressão nada! A risada medonha vinha lá de cima, da galeria sobre o palco!”
Os dois amigos olharam para cima, mas não viram nada além do conjunto de roldanas e panos de cenário em três camadas do fundo do palco do velho teatro.
O Verbo guinchou de novo: “Ai! Ai! Merda, já tenho que ir pro banheiro de novo!” – e saiu voando para o banheiro que ficava na coxia.
Nisso, os demais integrantes do quinteto de cordas iam chegando, e o Prates ia relatando o que tinha acontecido com o Verbo.
Naquele dia não teve ensaio.
O Prates foi lá no andar térreo, na secretaria, pedir para que alguém telefonasse para o pai do Verbo, que viesse buscá-lo, já que, se fosse de bonde, certamente poderia se borrar antes de chegar em casa.
A pedido do Padre Vieira, o episódio ficou entre os cinco rapazes, para não despertar temores maiores ainda, já que essa alucinação era um relato recorrente no colégio.
Mas o Prates notou que o padre sabia mais do que dizia.
Desde esse dia, o grupo de músicos passou a ensaiar na sala da redação do jornal do colégio. Afinal, um grupo pequeno podia ser acomodado em qualquer lugar, não sendo necessário subir ao último andar do velho edifício. O prédio, afinal, era enorme, tinha muitas possibilidades. Fora construído logo depois da proclamação da república, e certamente tinha uma história recheada de episódios os mais surpreendentes. Aquele seria apenas mais um deles.
Pois é. Mas o Padre Vieira sabia. Sabia mais do que dizia.
E o mistério continuou, e em meados dos anos 1960, o velho colégio foi demolido, deixando sem resposta as interrogações dos cinco ex-colegas.

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Chopinho em Capão

12/02/2013

Feriadão de carnaval na praia.
Já havia anoitecido. A brisa do mar suavizava um pouco o calorão que tinha feito durante o dia.
Os dois amigos tinham combinado de se encontrar num bar no centro de Capão.
Apesar de tumultuado, o centro de Capão da Canoa, nas noites de verão, era um convite a um bom chopinho com amigos. Sendo um dos balneários mais antigos do sul do Brasil, Capão sempre foi o lugar favorito dos jovens e dos não-tanto.
Pois lá estavam o Greg e o Edu. Tinham chegado cedo, e escolheram uma mesa do lado de dentro, protegida do barulho da rua, mas perto de um janelão lateral, por onde entrava a brisa noturna. Em cima da mesa, uma generosa travessa de aipim frito, bem crocante, que temperava a animada conversa dos amigos. O chopinho rolando solto.
O Greg estava animado:
– Tu viste o noticiário? Tá uma briga para retirar os crucifixos dos prédios públicos.
– Vi. E olha, não vejo qual o problema de haver esses símbolos em lugares públicos. Afinal, o Brasil é o maior país católico do mundo, né?
– Peraí! Tá na Constituição que o Brasil é um país laico! Portanto, o Estado não pode “preferir” uma religião!
O Edu ponderou então:
– O Estado não “prefere” nada, Greg. Ele só reflete a opção da maioria. E depois, vamos combinar: será que existe algum estado realmente laico no mundo?
– É, mas o Brasil já teve uma religião oficial, prevista na Constituição. Meu tio Mauro sempre conta que, quando ele era piá, era obrigado a rezar o Pai-nosso no colégio, mesmo sendo judeu. Até hoje ele fala nisso com mágoa. Muito natural, por sinal!
Edu reconheceu:
– Bom, aí já era demais, mesmo! Mas nestes anos todos, nossas leis mudaram. Existe total liberdade religiosa.
Greg retrucou: – Liberdade religiosa é uma coisa, laicidade é outra. No estado laico, religião e política não se misturam!
– Olha ,Greg, na prática o Estado acaba “preferindo” uma religião. Ou é a religião da maioria, se o país é democrático, ou é a religião de quem tem o poder. Por exemplo, no Irã, que todo mundo sabe que é uma teocracia atrasada, uma boa parte do povo – às vezes sem declarar abertamente – adota o zoroastrismo como religião, pois essa é a religião milenar dos persas. Só que os aiatolás se impõem na base da porrada!
– É verdade. E em Israel, que é por definição o Estado judeu, a religião judaica é a oficial. Só que, em Israel existe liberdade religiosa. Lá existem mesquitas, igrejas de várias denominações cristãs, e, se duvidar, até terreiro de umbanda tem!
Os dois amigos caíram na risada.
A essa altura, o chopinho ia descendo suave, a noite ia andando, o assunto era apaixonante.
O Edu insistiu:
– Portugal, por exemplo. Juridicamente, é um estado laico. Mas eu nunca vi povinho mais carola! Tem santo e igreja pra todo lado! Procissão, então, é quase todos os dias em alguma cidade. Já a Dinamarca, um país de povo altamente educado e secularizado, tem religião oficial! Vai entender!
Nisso, Greg olha para a entrada do bar:
– Olha, parece que as gurias chegaram!
Era impossível não notar. As duas, mesmo vestindo roupa praiana, simples e casual, chamavam a atenção. Passando por entre as mesas, faziam a conversa parar por onde passavam. As duas de shortinho, mostrando as pernas roliças e esguias. As duas produzidas de modo sensual, mas sem vulgaridade. Levantados, os amigos cumprimentaram as garotas:
-Oi, lindas!
Beijinhos protocolares, as duas sentaram. E ao sentar deixaram os dois sem fôlego.
As duas com lindos e generosos decotes. Que mal escondiam suas promessas deliciosas.
A Graça, com a camisa verde-escura, ostentava pendente da grossa corrente do pescoço, um lindo crucifixo estilizado, trabalhado com pedras semipreciosas. Uma lindeza. Já a Raquel, com sua pequena blusinha azul-noite, exibia com evidente prazer sua corrente de pescoço, da qual pendia uma lindíssima estrela de Davi de meia tonelada.
Foi a Raquel que puxou o papo:
– E então? Lá de fora, enquanto estacionávamos, vimos a conversa animada de vocês! Qual era o assunto?
– Hã… O assunto? – gaguejou o Greg.
– Amenidades. Só amenidades! – socorreu o Edu.
– É! Claro! Só amenidades!

Anestesia

05/02/2013

No hospital, fazendo um exame de rotina.
Só que é com anestesia.
Nunca tive medo de anestesia. Mas acabei me dando conta de uma coisa: durante a anestesia, a gente deixa de participar do mundo. As coisas acontecem sem a gente participar. O que, por si só, é muito angustiante.
Quarenta e dois minutos. Um tempo de ausência em que eu deixei de participar da vida deste mundo – ou de qualquer outro. Coisas aconteceram durante esses quarenta e dois minutos. Perto de onde eu estava ou longe. Em alguns filmes fantasiosos de ficção, o sujeito consegue “congelar” tudo, o tempo pára, e nada acontece. Como num video quando a gente dá um “pause”: tudo fica parado, e quando damos o “play” de novo, a vida continua do ponto onde tinha parado.
Na anestesia não.
Durante os quarenta e dois minutos, ficamos à deriva. À margem da vida. Num limbo, onde deixamos de participar de tudo que acontece.
Antes da anestesia, flanava pela sala uma enfermeira moreninha, de franjinha, bundudinha. Passou a anestesia e puf! No lugar exato onde ela estava apareceu outra, de testa franzida, tensa, com ar de poucos amigos. E eu não participei da vida, do mundo, durante os minutos em que a outra – bem mais interessante – flutuava ao redor da maca e dos aparelhos ameaçadores, fazendo que a situação fosse mais suave, ou pelo menos mais interessante.
Quanta coisa poderá ter se passado durante aqueles minutos da anestesia? Quanta vida, borbulhante, efervescente, não teve minha participação! A vida andava, a fila andava, o mundo girava, e eu não estava.
O fim da vida é assim também. Só que dessa ausência não se volta. O mundo continua, as pessoas continuam fazendo amor, trabalhando, realizando sonhos, viajando para lugares distantes! Sem nós. Só que para o resto dos tempos.
A anestesia definitiva. Inescapável. Permanente.
Bom. Pelo menos desta de agora eu voltei. Perdi um pouco de participação, apenas.
Vamos nessa.

O banheiro de Melilla

06/10/2012

A apresentação da noite anterior tinha sido um sucesso.
Parecia um sonho. O Greg, gaúcho de Porto Alegre, tocando em… Málaga! E o pessoal gostou!
No começo, a ideia parecia uma maluquice. Como assim, um grupo de músicos desconhecidos ter a coragem de se mandar com mala e cuia para a Espanha, e ainda por cima se dar bem? E lá estavam eles: o Greg, o Edu, o argentino Ortega e a Lu Alves.
Era uma manhã quente de setembro. Eles não teriam atividades por três dias. O Greg resolveu achar um passeio interessante, que não fosse parte de algum esquema turístico, até porque, sabe como é, músicos não têm muita grana. Tentaram ir ao Museu Picasso, pois Málaga é a cidade-natal do famoso pintor.
Só tentaram.
A fila para entrar estava muito grande, e o museu, que é relativamente pequeno, não comportava tanta gente.
Frustrados, os quatro músicos passaram no hotel, cada um pegou sua mochila com o essencial para qualquer oportunidade que surgisse, e saíram caminhando. Primeiro passaram na frente da linda catedral. Mais adiante, chegaram ao Paseo del Parque, uma ampla avenida paralela à grande área verde que é o Parque de Málaga. Foram logo atraídos pelo que se via logo à frente, e não pelo parque em si. Pois um pouco mais à frente viam-se atracados os imponentes navios na Marina e, mais adiante, no porto mercante, guindastes faziam a carga e a descarga nos navios cargueiros. Uma rápida consulta ao folheto de informações deu a dica: da marina, logo em frente, saíam os ferry-boats que fazem a travessia até Melilla.
A Lu perguntou:
– Onde é isso? Melilla? Nunca ouvi falar!
Greg, ainda guri, mas já bem viajado, explicou:
– Aqui a gente está perto de Gibraltar, onde a largura do Mediterrâneo vai ficando cada vez menor até o famoso estreito, onde ele se comunica com o Atlântico.
– Tá, continuo sem entender onde é Melilla!
– Já explico. Do outro lado, é a África. Marrocos. Só que a Espanha tem um território lá, que é uma cidade, uma espécie de “mordida” na costa do Marrocos. Lá é Melilla. Território espanhol. Dizem que é um lugar muito interessante de se conhecer.
Tudo deu certo. O ferry ia sair dentro de meia hora. Em pouco tempo, os quatro já estavam a bordo. Eles sabiam que, à noite, haveria um ferry para voltarem a Málaga.
Então foram. Rumo ao norte da África.
Pouco antes do meio-dia já pisavam solo africano.
Um ônibus de linha, limpo e barato, os levou ao centro da cidade, à inevitável e redonda Plaza de España. Um simpático restaurante oferecia uma típica refeição. Quer dizer, uma mistura da cozinha andaluza com a cozinha marroquina. Tudo regado a um bom vinho de Rioja.
– Que idioma aqueles caras ali da mesa perto da porta estão falando? – perguntou o Edu.
– É árabe! Isto aqui é uma baita mistura de culturas. Olha só as roupas deles. Esses aí estão vestidos com trajes ocidentais “normais”, mas aqueles ali no fundo, vocês viram? Típica indumentária marroquina – explicou o Greg.
Os quatro brasileiros devoravam com os olhos muito mais do que a própria comida. Menos o Edu. Ele adorou os pratos marroquinos, embora um pouco apimentados. Couscous (parecido com o nosso cuscuz, claro) e tahine eram mesmo deliciosos.
Terminada a refeição, os quatro músicos saíram de novo a bater perna pela cidade hispano-africana.
Só que, nem dez minutos de caminhada, aconteceu o inevitável: o Edu começou a se contorcer e fazer caretas. A Lu notou e perguntou?
– Que foi, cara? Tá te sentindo bem?
– Bem nada! Esta dor de barriga tá me matando!
– Deve ser aquela comidinha gostosa fazendo seu efeito.
Experiente, o Greg já foi logo olhando em redor para encontrar possíveis locais onde haveria algum banheiro.
– Olha, tem um centro de informações turísticas ali do outro lado da rua. Será que está aberto?
Para desespero do Edu, estava fechado, e só reabriria às quatro da tarde.
– É – disse o Greg – tá fechado. Mas logo adiante tem o que parece ser um restaurantezinho.
Pararam na frente do estabecimento. Um prédio antigo, típico marroquino. No letreiro dizia: “Rachid Fouad – Moroccan Food”.
– Vamos nessa! – disseram os brasileiros, em coro.
Direto para o balcão. E o cara que estava atendendo era marroquino, vestido em traje típico.
O Greg salvou a situação. Tinha aprendido pela internet umas “survival phrases” em árabe.
E saiu lascando:
– Aina al mirha’ad?
O cara do balcão entendeu!!!! Apontou uma direção, no fundo do restaurante. E o Edu não perdeu tempo. Embarafustou pela direção indicada. E se a indicação de onde era o banheiro masculino estivesse em árabe? Estava! Mas em espanhol e inglês também, para alívio do esverdeado brasileiro se torcendo.
Os amigos ficaram esperando na calçada, olhando o movimento.
Pois passaram-se bem uns vinte minutos até o Edu aparecer, com cara de poucos amigos.
A Lu foi logo perguntando, sem cerimônia:
– E aí, cara? Conseguiu se esvaziar?
– É! Consegui! Mas nunca mais!
– Como assim?? Qual foi o problema? Não tinha banheiro lá?
– É, tinha.
– Então?
– É dum tipo horrível!
– Como assim? Sujo?
– Não! Até que é bem limpo! Mas não tem vaso!
– Hein? Banheiro… Sem vaso? – perguntou a Lu.
– É um… um… negócio no chão, com lugar para botar os pés. O cara tem que ficar agachado… acocorado!
– Ah! É um vaso estilo turco – explicou o Greg – é muito usado nos países do norte da África. Mas olha, é mais higiênico que o tipo ocidental! E alguns médicos dizem até que é melhor para a saúde.
– Ė? Tu gosta? Então vai tu lá se acha que é tão bom assim – retrucou o Edu, indignado.
A Lu e o Ortega só olhavam de um para o outro, loucos para rir.
– Não vejo qual é o problema – disse o Greg – Não resolveu o teu problema?
– Resolver, resolveu. Mas é… muito embaraçoso! Horrível!
– Por que?
– Porque estão todos ali, juntos, um ao lado do outro, sem divisão entre eles!
– Ah. Percebi. E tinha mais gente lá?
– Tinha.
Aí o Ortega, que estava quieto, se manifestou:
– Só uma coisa. Será que o banheiro feminino é igual?
– Sei lá – respondeu o Greg. Quem se importa?
No mesmo instante os três rapazes olharam para a Lu.
– NEM PENSAR!!! – berrou ela – Náo vou, de jeito nenhum!! Podem tirar o cavalinho da chuva!
– Tudo bem, não vai – respondeu o Edu – mas fico só imaginando.
– Imaginando O QUÊ? – berrou a morena, com a paciência no limite.
– A cena. Se tiver, digamos… mais gente.
O passeio prosseguiu sem que houvesse muita conversa. Só o essencial. Melhor assim, né?

Cafezinho no Shopping

20/09/2012

O Greg tinha que achar uma maneira de aproveitar o feriado de vinte de setembro.
Feriado no meio da semana. Não dava nem para dar um pulinho na serra. Ou na praia.
Um cafezinho vinha bem. Ligou para o Nunes, velho amigo, e combinaram o encontro no shopping.
Não era na praça de alimentação. A cafeteria predileta do Greg era na outra ponta. O café deles era muito gostoso. E a posição era estratégica: ele procurava sempre a mesma mesa, e ficava de frente para o fluxo, bem ao lado de uma igualmente estratégica escada rolante.
Quando Greg chegou, o Nunes já estava lá, em pé, perto de uma vitrine de roupa.
Uma vez sentados, cada um pediu o seu café.
“Tu sempre vens aqui, né? Já te encontrei nesse mesmo lugar, outras vezes” – disse o Nunes.
“Acontece que, além do café, que é uma beleza, este lugar é muito bom para ficar observando o movimento. E passa gente muito interessante por aqui, ainda mais num feriado!”
O Greg sabia o que estava dizendo. Lojas de grife cercavam a cafeteria, e atraíam um público feminino vaidoso e interessante.
Concordando, o Nunes mudou um pouco a posição da cadeira onde estava sentado para poder observar melhor o movimento.
O papo foi variado: falaram sobre futebol, sobre os esdrúxulos candidatos a vereador com seus nomes bagaceiros, sobre a crise na Síria.
Lá pelas tantas, o Greg lembrou: “Olha, não te dou dez minutos para aparecer alguma pessoa conhecida. Toda vez que eu venho aqui, aparece alguém. É infalível!”
“Tudo bem, então fica aí um pouco que eu vou no banheiro” – disse o Nunes.
E não deu outra.
Passaram-se talvez uns dois minutos, e uma figura conhecida ia passando, olhou para o lado das mesinhas de café e cravou os olhos no Greg.
Era ela mesma. A Verônica. E estava ainda mais interessante. Com um vestido preto que contrastava com o cabelo loiríssimo, os mesmos olhos azuis, a mesma pele lisa, a fisionomia alegre de sempre.
“Oiiii!” – gorjeou ela com a voz levemente rouca.
“Um cafezinho, é? E não me convida?”
“Claro que convido! Vem, vem, senta!” – disse o Greg.
Uma vez acomodada, Verônica pediu seu café. Ele se lembrava, como se fosse ontem, do gostosíssimo e curto caso com a loira. E ela continuava linda. O vestido preto dela tinha um decote tipo ímã, sabe como é? Daqueles que qualquer marmanjo não consegue desviar o olhar. O cara quase tem que pegar a própria cabeça com as duas mãos para virá-la e evitar o mal-estar de ser flagrado como se fosse um tarado ou um carente.
“Olha Verô, vou te dizer uma coisa: tu estás cada vez mais linda. Sinceramente, tenho saudades daquele tempo em que ficamos juntos.”
Nisso, chega o Nunes de volta.
O Greg foi logo fazendo as apresentações:
“O, Nunes, esta aqui é uma grande amiga, a…”
“Sim, a Verônica, pode deixar, já nos conhecemos!” – contrapôs o amigo.
E já foi tascando um beijão nos lábios da loira.
Meio sem jeito, o Greg até olhou para o lado. Tipo “nem vi nada”, sabe como é.
O Nunes explicou:
“Que legal que vocês já se conheciam! De onde?”
Agora a Verônica tratou de explicar:
“Fomos colegas na faculdade. Bons tempos aqueles!”
E o Nunes esclareceu:
“Pois a gente está… juntos. Já faz dois anos. E até maio do ano que vem vai ter casório!”
“Opa! Q…Que maravilha! Parabéns!” – o Greg lutava para manter a naturalidade.
O amigo explicou que a namorada tinha ido fazer umas compras e combinou o encontro, aproveitando que já estaria lá mesmo.
A conversa agora passou a girar sobre os tempos de faculdade, sobre profissões, pós-graduação, e tipo “E a fulana? Para onde foi depois que se formou?”
Manter a naturalidade. Como era possível? O decote-ímã puxava o olhar de Greg. A lembrança do passado era perturbadora. O fato de ela agora estar com o Nunes era ainda mais perturbador.
Restava a atitude óbvia: bater em retirada.
“Olha só! Já são quase seis horas e lembrei que tenho que terminar um relatório para amanhã, que é dia útil! Vou ter que ir!”
Fazendo questão de pagar a despesa, Greg cumprimentou o casal e saiu de fininho.
O jeito de tirar o assunto da cabeça foi pegar um cineminha.
Em outro shopping, claro.

John Doe

16/09/2012

Um lanche rápido mas delicioso no Sbarro. Não era um “fast food”, mas certamente também não era um jantar digno desse nome. Nem dava, era cedo para isso.
O início de noite no Times Square era típico: barulho para todo lado, gente para todo lado. Mesmo sendo um brasileiro acostumado com Manhattan, a cidade sempre tinha novos segredos guardados, talvez com um anseio quase exibicionista de desnudar a novidade. Lá ele tinha estudado. Lá ele tinha trabalhado. Lá ele tinha amado.
Saindo da esquina do Sbarro, caminhou sem pressa pela multidão. Eram poucas quadras até o Lincoln Center. Nessa noite de sexta-feira, ele ia assistir ao show da Eliane Elias. Tinha vindo de Boston para isso. Na verdade, quando ainda estava em Porto Alegre havia planejado esse fim de semana. Sexta em Nova Iorque, sábado em Boston tocando no John Doe. O que Greg mais admirava na Eliane era a capacidade de ser uma excelente pianista e cantar ao mesmo tempo, além, é claro, de ela ser uma jazzista e ainda por cima brasileira. Ele, pianista como era, queria olhar de perto a exploração do teclado dessa bela artista, especialmente as puxadas de esquerda que ela sempre fazia nos improvisos.
Poucos minutos até o Lincoln Center. Ele tinha comprado o ingresso ainda quando estava no Brasil, com meses de antecedência. E pagou caro. Queria estar na plateia, perto do palco.
Mais uns poucos minutos e já estava sentado. À sua volta, gente de todas as idades, de todos os vestires, de todas as cores. Uma noite típica no Center.
O espetáculo era muito bom. No início, ela ao piano, mais um baixo acústico e uma bateria, ambos competentes. Mais tarde – e ele já sabia – ia participar o trumpete do Joe Moreland e o sax do Pete Garcia. E ela, claro. Puxando aquelas harmonias suaves, aquelas seqüências sensuais. Sensuais? Greg se deu conta: ela era toda sensual. Não só no piano! Aquela voz de contralto, aveludada, com um provocante sotaque bem brasileiro. O cabelo longo e liso, o vestido curto que o banquinho do piano repuxava, mostrando melhor as lindas pernas. E os pés. Os pés! Sim, ela tocava descalça. Aqueles lindos pezinhos, ora apertando os pedais do piano, ora marcando o ritmo no chão de madeira nobre. Pronto! Os olhos de Greg não buscavam mais os “walking-bass” do contrabaixo. Nem tampouco apreciavam o uso das vassourinhas pelo baterista. Nem o próprio teclado, ele olhava. Nada. Só aqueles pés tão femininos, tão suaves, tão delicados.
E assim foi até o final.
O embevecimento continuou depois do show. No trem até o Queens. No apartamento do hotel que costumava usar quando ia a NY.
No outro dia, sábado, voltando para Boston dirigindo seu velho Pontiac, só pensava no que tinha assistido, e em como iria ser o seu próprio show, de noite, no John Doe.
De tarde, ligou para os músicos de seu grupo, haveria um breve ensaio e passagem de som no próprio John Doe, o elegante bar onde seria o show deles, à noite.
Na hora combinada, lá estavam todos no bar. Edu, o baterista brasileiro, Ortega, o baixista argentino, e Lu Alves, a morena cantora, nascida e criada em Porto Alegre, amiga de longo tempo.
Greg reuniu todo mundo em torno do piano e começou a repassar a seqüência do que iria ser apresentado. De repente, lembrou o show da véspera e comentou com o pessoal. E lembrou dos lindos pés descalços da Eliane Elias. E olhou para baixo, e viu o sapatinho bem esportivo, sem meias, que a Lu estava usando. E disse:
“Lu, tu não te incomodarias de tirar os sapatos? Acho que talvez o clima para a gente tocar e cantar fique ainda melhor.”
O pessoal se entreolhou. A morena ficou meio confusa:
“Como, assim? Por que?”
Aí ele tentou uma explicação:
“Não é, eu.. Quer dizer… Eu acho que o visual de uma cantora descalça pode ser mais, digamos… sei lá, informal, bonito.”
Como a Lu não era mesmo de muita frescura, já foi tirando os sapatos. E revelando o que Greg mais queria saber. Será que os pés da Lu eram bonitos? Deusmelivre se forem daqueles pés feiões, ossudos, pontudos, calosos!
Mas não eram.
A Lu, que já não era nem um pouco feia, com aquele cabelo muito preto, os olhos muito verdes muito grandes, as pernas morenas muito… ai… gostosas. Agora Greg podia ver os pés dela.
Lindos.
Pequenos.
Delicados.
Sensuais.
Então estava decidido. No show daquela noite, ela iria descalça.
Na hora do show, o John Doe estava lotado.
Todos os músicos estavam de terno preto e gravata vermelha. Greg era jovem mas conservador: os músicos com quem tocava não eram desses cabeludos, ou barbudos, ou excêntricos de alguma forma. Nem usavam drogas. Nem a Lu. Todo mundo “limpo”.
A Lu entrou no palco com um lindo vestido vermelho.
E descalça.
Greg já tinha mandado colocar um banco alto para ela, bem do lado do piano. Não para ela sentar em todas as músicas, apenas naquelas mais suaves, mais românticas.
Show começado, músicos motivados, improvisos fluindo.
Então chegou a hora de tocar – e cantar – “S’Wonderful” – um clássico da sensualidade jazzística.
A Lu se sentou no banquinho ao lado do piano. O grupo, fazendo o ritmo puxando um pouco a samba, dava uma base quente, gostosa, e ela sabia usar isso. Foi cantando. Suave. Linda.
Greg olhou para aqueles lindos pezinhos e, sem pensar, olhou no rosto dela e deu duas batidinhas com a mão na própria perna. Ela entendeu. Devagarinho, deixou um dos pés na barra do banquinho e deslizou o outro, suavemente, sobre a perna de Greg.
E ali ficou.
Greg só olhava para o teclado quando tinha que fazer algum acorde mais difícil. O resto do tempo, cravou os olhos no lindo pé da cantora.
Ela sentiu o clima e sinalizou que queria também um improviso. Depois do baixo. Depois da bateria. E então soltou aquela voz. Incrível! O Greg de olho colado no pé dela.
Bom, nem preciso dizer que o público, exigente, amante de jazz e boa música, aplaudiu de pé.
Terminado o show, o baterista Edu olhou para o argentino contrabaixista e sentenciou:
“Te prepara. De agora em diante, a Lu só vai cantar descalça. E nós? Nós vamos fazer muito sucesso. Vamos tocar muito, velhão!”
E assim foi.

Take Five

08/09/2012

Era uma tarde de sábado, como tantas outras.
Na ingênua Porto Alegre de 1961, o bonde era o meio de transporte preferido entre o centro e os bairros.
Eu podia pegar um Teresópolis ou Glória. Morava com meus pais e minha irmã, no centro, na velha e estreita rua Riachuelo, numa velha e estreita casa, espremida num velho e estreito terreno. Veio primeiro um Teresópolis, pulei logo para dentro do barulhento veículo. Vinte minutos depois eu descia, pouco além do Estádio Olímpico, para ainda caminhar um quarteirão pela Carlos Barbosa.
Aquela era uma tarde um pouco diferente das habituais tardes de sábado, quando sempre fazíamos música com nossos parcos instrumentos e nossa ainda incipiente cultura musical.
Pois dessa vez estávamos na sala de estar do casarão dos Franco, onde havia um toca-discos de boa qualidade. Nós cinco, amontoados em torno do aparelho que era um elegante móvel, moderno para a época.
A preciosidade que ouvíamos eram os discos do quarteto de Dave Brubeck. Já tínhamos feito isso outras vezes, noutros sábados.
Mas esse sábado era especial.
Tentávamos entender e assimilar o andamento de 5/4 de “Take Five”.
A apresentação do tema, pelo elegante e imortal sax do Paul Desmond, depois de algum tempo já conseguíamos assobiar ou cantarolar sem perder o ritmo. Mas os improvisos? Ah, os improvisos! Improvisar em 5/4? Barbaridade! Que difícil!
Nesse sábado acabamos não tocando. Só ouvindo. Só aprendendo.
O baterista do quarteto do Dave era o Joe Morello. O cara era mágico, só podia ser. Fazia um solo de bateria, em 5/4, sem se perder! Sem errar uma batida!
Depois desse sábado, acabamos fazendo outras sessões de audição e aprendizado. Ouvíamos outros músicos, mas certamente Brubeck era o preferido. Ainda lembro os nomes dos discos: Time Out, Time in Outer Space. Nessa época inciava-se a corrida espacial, e a arte em geral refletia o que se passava na nossa cultura ocidental. E as músicas que marcaram época na evolução jazzística depois do Take Five, como Blue Rondo a la Turk.
Mesmo depois de meio século, aqueles mesmos guris adolescentes continuam enfeitiçados.
O feitiço da música é para sempre.